Saiu no Terra Magazine uma reportagem sobre um projeto da Prefeitura Municipal de João Pessoa de cinema no Casarão 34.
A matéria intitulada Iraque para paraibano ver, mostra que temos uma opção alternativa de cinema que não à convencional. Isso é muito bom, uma vez que demonstra, não somente por esse fato, mas por tantos outros, que em nossa capital há excelentes opções em cinema, música, teatro, dança, poesia. É só ficar atento e não se deixar levar pelas facilidades midiáticas e as apelações do baixíssimo nível das tantas bandas de Forró que deturpam as nossas raízes. Parabéns aos idealizadores desse projeto e também a outros lutadores de divulgação cultural.

Iraque para paraibano ver
Thais Bilenky
O primeiro filme exibido no Iraque depois da queda do ditador Saddam Hussein, em 2004, foi Tartarugas podem voar, do iraniano Bahman Ghobadi. Nele, crianças curdas conseguem sobreviver em um campo de refugiados desarmando e vendendo minas. O Casarão 34, cineclube em João Pessoa, Paraíba, exibe hoje o longa, dentro de sua programação quinzenal de cinema alternativo.
O projeto do Casarão 34 alterna sessões SóDoc (de documentários) e AlvoVisual. Nesta última, a cada rodada, vincula-se cinema a uma arte que não a sétima, através de um filme eleito pelo convidado da vez. Sob o tema “Cinema, Artes Visuais e Filosofia”, o professor Miguel Gally, doutor em filosofia (UFRJ) com ênfase em Estética e Filosofia da Arte, diz que selecionou Tartarugas podem voar para discutir a liberdade na vida humana bem como na criação cinematográfica.
- A escolha não tem a ver com o público local… O filme, com uma narrativa aparentemente simples, com começo, meio e fim, mostra toda hora a liberdade moral das crianças. Mas mostra, em paralelo, a liberdade na criação da própria linguagem cinematográfica – analisa Gally.
As sessões no Casarão 34 são organizadas pela prefeitura de João Pessoa desde outubro de 2007 e contam com um público médio de 30 pessoas por exibição. A crítica que se faz, dentro do projeto e por parte de Gally, é à carência de salas paraibanas que exibam cinema menos vendável, de teor mais experimental.
Abaixo, leia entrevista com o professor Miguel Gally.
Terra Magazine Por que este filme? Algo particular com o público de João Pessoa?
Miguel Gally - A escolha tem a ver com a temática do AlvoVisual da rodada, que é “Cinema, artes visuais e filosofia”. A da vez passada era “Cinema, literatura e televisão”. O filme é interessante, e por isso a escolha, porque aborda uma temática, às vezes indiretamente, que é a questão da autonomia da linguagem cinematográfica. O enredo pode ser, à primeira vista, simplório, que de certa forma confirma o argumento de Greenway (Peter Greenway, pintor e cineasta inglês, nascido em 1942) de que o cinema está na pré-história. Greenway diz que o cinema precisa revolucionar sua linguagem e usar tecnologias vinculadas à linguagem literária.
A escolha não tem a ver com o público local. Este foi o filme escolhido para levantar a discussão sobre o vínculo do cinema com outras linguagens, das artes visuais, da linguagem literária etc. Por isso o Greenway na discussão. Ele é um artista visual, a formação dele é na pintura e ele se apropria da linguagem cinematográfica.
Então por que não um filme do próprio Greenway?
Podia ser dele, é verdade. Mas com o filme de Ghobadi pode-se mostrar outras alternativas. Podia ser o “As Maletas e Tulse Luper” (De greenway)… Mas “Tartarugas podem voar”, com uma narrativa aparentemente simples, com começo, meio e fim, aborda a questão da liberdade na construção da narrativa e acaba entrando em choque com o argumento de Greenway. Não é interessante hoje que a linguagem cinematográfica tenha domínio próprio. Pode utilizar, articular outras linguagens – das artes visuais, poesia, pintura. Não precisa ter ela própria uma. E “Tartarugas” tem aspecto poético forte e temática interessante.
Qual é a temática?
O filme é de 2004, o primeiro feito no Iraque depois da queda de Saddam (Hussein, ditador executado pelo Tribunal Iraquiano em 2006). O filme se passa no momento imediato anterior à queda e também da chegada da notícia a um campo de refugiados curdos, em algum lugar entre Iraque e Turquia. Mostra toda hora a liberdade moral das crianças, que não têm a repressão dos adultos. Têm crianças, no enredo, que desarmam minas e comercializam. Uma menina que engravida e sem condições de ter a criança, se mata e mata o filho. Então, o filme mostra a condição da liberdade dentro dos próprios personagens, e, em paralelo, na sua própria criação. Contrapõe a visão exclusivista de Greenway de o cinema ter uma linguagem só, o que restringe as possibilidades do cinema.
Como o senhor avalia o projeto do cineclube?
Estive na úlitma sessão. É, na verdade, um trabalho de guerreiros porque aqui é muito difícil exibir filmes assim. A divulgação existe, mas tem muita resistência.
Na Paraíba, o cinema é rendido a Hollywood?
Nas casas de cinema, sim. Não sei se por falta de público, sei lá! Este (programa) é uma ilha isolada, viculada a um outro, o da Associaçao Brasileira de Documentaristas (ABD), de curtas-metragens. Mas é um empreendimento muito bom e necessário.

Não me lembro de “Tartarugas Podem Voar” ter passado pelo chamado “circuitão”, é possível que não. Mas deu vontade de assistir. Boa iniciativa do Casarão 34.
Um abraço, parabéns pelo blog,
Tommy Beresford – Rio de Janeiro
http://cinemagia.wordpress.com
http://acasatorta.wordpress.com