
A saga de noites mal dormidas em que o complexo consciencial (cognição, relação e espiritualidade) se direciona para as problemáticas da vida. está dando um tempo, e, espero que seja longo. Uma noite de recuperação de uma semana cansativa, abre-se para a esperança no mundo.
Começarei com Paulo Freire que, diferentemente de Paulo, o apóstolo, estou no mundo e sou do mundo, portanto, não devo fugir da responsabilidade de atuar nele. As mazelas e as conquistas que esse mundo nos oferece, sou um co-autor. Agora resta saber se sou co-autor em maior medida nas mazelas ou nas benesses. Eu não sei direito a minha medida, que dirá das dos outros.
É imperativo no momento vivido no mundo, onde ficamos sabendo em instantes sobre os diversos conflitos que ocorrem no mundo, saber dosar entre a vida contemporânea carregada de aparatos tecnológicos e a vida simples, que às vezes não carrega nada além do que os olhos veem. Usar o bom senso de ser moderno e simples é talvez a mais difícil situação que podemos experienciar.
Ser moderno não é aceitar tudo o que nos oferecem como sendo apropriado para a vida, bem como ser simples não é rejeitar toda a modernidade que o mundo tecnológico traz. A linha é mais tênue que possamos imaginar. É uma linha oculta, invisível, contudo, é necessário acharmos esse fio condutor, ou melhor, é fundamental que saibamos tecer esse fio condutor que imerge e transita entre as várias facetas da vida.
As mudanças são cada vez mais constantes. Se antes, as mudanças sociais demoravam séculos, hoje, em algumas décadas ou anos podemos perceber as mudanças. Se antes era necessário gerações para sentir, hoje uma mesma geração sente mais de uma grande revolução. Mas tudo isso não trouxe o que realmente deveria trazer: uma melhoria global nas condições de viver. Rousseau já se preocupava séculos atrás, hoje essa preocupação precisa ser expandida para onde a melhoria não chegou. Bilhões de pessoas ainda não têm condições mínimas para se viver bem.
A linha tênue entre a simplicidade e a modernidade talvez resida em estar atento aos novos acontecimentos, bem como entender que esses acontecimentos tem, em nós e em todos, um impacto. Se não sou atingido de forma direta, mas com certeza indiretamente sou. Aquela criança refugiada e desnutrida na África, aquela família que usa um cartão social do governo para comprar feijão, aquele executivo no 68º andar em Wall Street, aquele viciado embaixo de um viaduto, até mesmo os renegados da doença mental, somos todos mais ou menos atingidos pelas mundanças da contemporaneidade. A simplicidade está em dar mais valor às consequências nas pessoas que o meio, na intenção em que a modernidade conduz. Não estar com um complexo de culpa por ter boas condições financeiras, mas também saber que pode ajudar e fazer algo a mais em prol dos mais necessitados. É pensar que vencer na vida é uma vitória em equipe e não do liberalismo exarcebado.
A esperança é que a informação possa se transformar em educação, em meio de transformação, não mais em meio de opressão e poder. A esperança é utópica, pois assim o é seu sentido de ser, de penetrar aos nossos anseios. Talvez o que mais precisamos é que a esperança deixe de ser utópica e seja a esperança do fazer, do realizado a realizar, do estar sempre fazendo e refazendo, contudo, com mais justiça e igualdade de condições. Desta forma, as idiossincrasias humanas serão cada vez mais respeitadas e realizadas em si mesma.
A esperança enfim é a que nos dá condições de vislumbrar um mundo em que a modernidade e a simplicidade possam andar juntas, possam ser dois caminhantes que vão espalhando suas sementes na estrada que fora arada e que o tempo é o amigo fiel para a plena germinação…
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O RETIRANTE RESOLVE APRESSAR OS PASSOS PARA CHEGAR LOGO AO RECIFE
—— Nunca esperei muita coisa,
digo a Vossas Senhorias.
O que me fez retirar
não foi a grande cobiça
o que apenas busquei
foi defender minha vida
de tal velhice que chega
antes de se inteirar trinta
se na serra vivi vinte,
se alcancei lá tal medida,
o que pensei, retirando,
foi estendê-la um pouco ainda.
Mas não senti diferença
entre o Agreste e a Caatinga,
e entre a Caatinga e aqui a Mata
a diferença é a mais mínima.
Está apenas em que a terra
é por aqui mais macia
está apenas no pavio,
ou melhor, na lamparina:
pois é igual o querosene
que em toda parte ilumina,
e quer nesta terra gorda
quer na serra, de caliça,
a vida arde sempre com
a mesma chama mortiça.
Agora é que compreendo
por que em paragens tão ricas
o rio não corta em poços
como ele faz na Caatinga:
vivi a fugir dos remansos
a que a paisagem o convida,
com medo de se deter,
grande que seja a fadiga.
Sim, o melhor é apressar
o fim desta ladainha,
o fim do rosário de nomes
que a linha do rio enfia
é chegar logo ao Recife,
derradeira ave-maria
do rosário, derradeira
invocação da ladainha,
Recife, onde o rio some
e esta minha viagem se fina.
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No viajar pelo nordeste, utilizando o carro como meio de transporte, nos deparamos com um nordeste incrível. Tem uma beleza geográfica formidável, cidades grandes, pequenas e povoados, bem como um povo acolhedor.
É justamente sobre o povo que nos vem a maior preocupação. Sempre nos deparamos com a falta do que fazer de muitas pessoas que ficam na beira da estrada, nas calçadas das casas, nos bares, na frente dos serviços públicos (postos de saúde, prefeitura, serviços sociais) na busca de solução para os males que o aflinge.
Se no post anterior eu escrevi um pouco sobre o que a nas grandes cidades, na vida moderna, trazem um vazio, onde a solidão e insatisfação constante rondam os jovens adultos, nas pequenas cidades, o vazio é do que fazer, do que produzir. Não sou um pragmático ao ponto de achar que temos que fazer sempre algo de útil. Acho que sempre devemos sim, mas o que é útil para uns, é inútil para outros, como a vida simples, escrita no mesmo post anterior. Então a utilidade não é a do consumo, nem do mercado, mas a utilidade de viver bem.
A cada dia aumenta o número de adolescente nas cidades pequenas que consomem drogas. O Crack, antes restrito aos grandes centros, está agora nas menores cidades. O que leva os adolescentes de uma dessas cidades a consumir drogas? Não são os mesmos motivos dos das grandes cidades, mas tem algumas semelhanças.
O vazio existencial pode ser um caminho. Mas o que leva ao vazio existencial? Penso que os adolescentes das pequenas cidades têm poucas perspectivas profissionais, poucas oportunidades de fazer alguma coisa diferente ou estimulante. Essas pequenas cidades nordestinas vivem, não à margem, mas no fundo do poço do descaso público. Na grande maioria, as pessoas vivem dos programas governamentais (bolsa escola, bolsa família) para subexistirem. Não existe um programa de desenvolvimento para as cidades. Quando há, são bem sucedidas.
Passamos pelas cidades e sentimos um ar de ociosidade… Aquele calor de 40 graus, aquelas pessoas nas ruas…. O pouco que fazer…. mas o que fazer? Como fazer? As pequenas cidades necessitam urgentemente de projetos que envolvam-nas com suas raízes. Penso ser a arte um caminho de oportunidades. Não digo que seja oportunidade financeira, apenas, mas de fazer algo novo sempre. De ter algo estimulante para fazer no dia a dia. A arte é capaz disso.
O vazio existencial não encontra eco na arte. Ela pode ser a massa, a estrutura, o processo é o ser humano; são as relações, o confraternizar-se que tornam a vida com mais recheio, com sentido. A busca disso tudo pode estar bem perto. É olhar-se e vêr-se no mundo, agente do mundo. Quando nos sentimos agentes de mudança, somos expulsos da ociosidade, pois vemos o quanto posso ser útil ao mundo.
A ociosidade leva-nos a ficarmos mudos, surdos e cegos. Não vemos nada além do trivial, não escutamos as vozes que ecoam pedindo mudanças e emudecemos quando alguém propõe mudar. A educação é o fundamento epistemológico e ontológico dessa mudança. Vai além das letras e dos números; das datas e dos relevos; dos macros e dos micros. É a base fundamental para a construção de cidadania, de atuação no mundo. É reconhecimento de si e do outro. Reconhecer, fazer e refazer… eduquemos, pois, que assim o mundo ficará melhor.
Já este post veio depois de uma viagem cansativa, reflexiva.
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No mundo moderno, onde as diversas formas midiáticas nos levam a diversos lugares sem sairmos de casa, onde um mundo de consumo e fantasia nos trazem felicidade efêmera, as pessoas estão cada vez mais sozinhas em mundos particulares, onde buscam com a mesma efemeridade e rapidez uma amizade curta, intensa e que preencha momentaneamente o vazio que fora instalado em sua vida.
Algumas pessoas estão tão apegadas a um mundo virtual, insipiente, que qualquer dia ou até mesmo horas longe dos aparelhos tecnológicos internéticos é motivo suficiente para que o vazio se instale novamente e a vida simples seja encarada como monótona.
Vida simples é conviver com as pessoas, pessoalmente. Parece redundante, mas na atualidade, coniver com as pessoas, para alguns é conviver através da internet. Algumas vezes pensa-se saber mais da vida de um amigo virtual que do parente em casa. Os chats parecem confessionários para uns, um megafone para outros, uma máscara para a maioria.
Atendimentos para viciados em internet via internet. Mais um paradoxo da insustentabilidade de ser. O vício e o meio de curá-lo se confundem, são um só. Afinal de contas é o único meio de confiança. Os rostos humanos são todos retocados pelo photoshop, aliás, photoshop, google, msn, já fazem parte do dia a dia da população, mesmo daquela que não utilizam essas ferramentas.
O paradoxo parece não ter fim, pois enquanto a internet for a principal válvula de escape para os desejos reprimidos; enquanto as relações se estabelecerem encobertas pela névoa da hipocrisia, a tendência é que estaremos cada vez mais próximos de máquinas e mais distantes do que realmente importa: a convivência simples, franca, respeitosa.
Mas há esperança… a volta da vida em convivência com outras pessoas; aprender e para alguns, reaprender a ter esse tipo de vida é salutar para todos. As dificuldades que sempre temos em convivência reais, trazem à tona o quanto ainda precisamos ser tolerantes, ter mente aberta, ser alteritário, enfim, ver que também sou isso que falo dos outros. Reconhecer-se talvez seja o primeiro caminho, para depois ir aos poucos aprendendo a conviver com todos novamente, assim, desta forma, alguns terão sucesso mais rápido que outros, mas todos chegarão lá.
Deixe de lado um pouco os aparelhos internéticos, faça algo diferente: leia um livro, jogue jogos de tabuleiro, faça uma visita, enfim, algo que não está na moda, mas que com certeza, será melhor para todos.
Enfim, o que uma noite de sono mal dormida pode fazer conosco: pensar um pouco (e bota pouco nisso) nos caminhos nossos de cada dia.
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Finalmente a OAB decidiu fazer alguma coisa no âmbito da política brasileira sem parcialidade. Já estava na hora, uma vez que os últimos documentos e cartas emitidas estavam impregnadas de tendências. O pedido de renúncia é interessante pois não está pedindo um partido ou situação-oposição, mas que TODOS saiam, já que muitos são vergonhosos pela descabimento de política e artimanhas que fazem, bem como outros pela inoperância. Até Pedro Simon, Aloisio Mercadante e Eduardo Suplicy que penso serem sérios deveriam sair também, para mostrarem sua força junto à população. Segue abaixo a carta da OAB Nacional:
“O Senado está em estado de calamidade institucional. A quebra de decoro parlamentar, protagonizada pelas lideranças dos principais partidos, com acusações recíprocas de espantosa gravidade e em baixo calão, configura quadro intolerável, que constrange e envergonha a nação. A democracia desmoraliza-se e corre risco.
A crise não se resume ao presidente da casa, embora o ponha em destaque. Mas é de toda a instituição — e envolve acusados e acusadores. Dissemina-se como metástase junto às bancadas, quer na constatação de que os múltiplos delitos, diariamente denunciados pela imprensa, configuram prática habitual de quase todos; quer na presença maciça de senadores sem voto (os suplentes), a exercer representação sem legitimidade; quer na constatação de que não se busca correção ética dos desvios, mas oportunidade política de desforra e de capitalização da indignação pública.
Não pode haver maior paradoxo — intolerável paradoxo — que senadores sem voto integrando o Conselho de Ética, com a missão de julgar colegas. Se a suplência sem votos já é, em si, indecorosa, torna-se absurda quando a ela se atribui a missão de presidir um órgão da responsabilidade do Conselho de Ética.
Em tal contexto, urge fornecer à cidadania instrumentos objetivos e democráticos de intervenção saneadora no processo político. A OAB encaminhou recentemente ao Congresso Nacional, no bojo de proposta de reforma política, sugestão para que o país adote o recall — instrumento de revogação de mandatos, aplicável pela sociedade a quem trair a delegação de que está investido.
Trata-se de instrumento já testado em outras democracias, como a norte-americana, com resultados positivos. O voto pertence ao eleitor, não ao eleito, que é apenas seu delegado. Traindo-o, deve perder a delegação. Não havendo, porém, tal recurso na legislação brasileira, prosperam discursos oportunistas, como o que sugere a extinção do Senado. A OAB é literalmente contra a extinção do Senado.
O Senado não pode ser confundido com os que mancham o seu nome. Precisa ser preservado, pois é o pilar do equilíbrio federativo. Diante, porém, do que assistimos, a sociedade já impôs à presente representação o recall moral. O ideal seria a renúncia dos senadores. Como não temos meios legais de impor esse ideal — único meio de sanear a instituição —, resta pleitear que se conceda algum espaço à reforma política, senão para salvar o atual Congresso, ao menos para garantir o futuro.”
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Além de meu blog estar atrasado, minhas assistidas de filmes também. Só agora assisti ao ótimo filme “Rebobine, Por Favor” de Michael Gondry, com Jack Black, Mos Def, Danny Glover e Mia Farrow. Primeira coisa: não vá pela capa e chamada do filme, é enganação pura. Querem vender com comédia pastelão, mas não é e está longe de ser. É um filme para os que sempre sonharam em ser um Kubrick, Spielberg ou até Zé do Caixão. Apesar de contar a história de uma locadora decadente de VHS, na verdade, o filme conta a história de apaixonados pela sétima arte, cada um com sua particularidade.
Um sonho louco, compartilhado com toda uma comunidade, vira uma realidade incrívelmente tocante, onde as vidas tomam novos sentidos. O filme demonstra como uma comunidade que aparentemente está parada no tempo, onde a vida das pessoas não sai da rotina, a partir de uma novidade simples pode transformar a vida das pessoas.
Quem nunca quis fazer um filme? Mesmo que sejam toscos como os apresentados, mas que tenham “alma”, como dizem. Deixar sua marca, ser reconhecido e fazer aquilo que lhe vier na vontade é coisa que muitos cineastas famosos não podem. As cenas de 2″001, uma Odisséia no Espaço”, “Condunzindo Miss Dayse”, bem como as referências a diversos filmes, fazem com que nós, cinéfilos, tenhamos vontade de fazer a mesma coisa.
O convite está feito, vamos “suecar” os filmes mais famosos e criar outros para fazer nosso cinema. Vale a pena!!!!
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Pela primeira vez na vida vou escrever algo sobre Roberto Carlos. Êpa! Não é sobre Roberto Carlos, mas suas canções e a homenagem que fizeram a ele pelos seus 50 anos de carreira. O espetáculo Elas Cantam Roberto que passou na Globo ontem só vem corroborar com o que penso sobre “O Rei” da Globo: ele é um ótimo letrista, mas que suas músicas ficam boas somente quando outras pessoas cantam, que não ele.
Todas cantaram muito bem, impondo suas vozes, mas eu destaco duas apresentações marcantes: Ana Carolina tirou o posto de Caetano para a melhor versão de Força Estranha. Ela é perfeita!!!! E Marília Pêra fez uma versão para 120… 150… 200Km por Hora que ficou pra história. Quando Roberto Carlos canta parece uma briga de amantes, uma pequena fossa. Marília Pêra fez expressar um tratado da vida moderna. É como se eu acabasse de brigar com o mundo e ir ler “O Desespero Humano” de Kierkegaard para me distrair, ou saí de uma missa e tivesse ido assistir “Dogville” de Lars Von Trier. A sua experiência cênica foi posta a serviço da música de forma sublime e magistral, com uma voz linda, uma expressão no vazio que a música alerta. Nunca a tinha visto dessa maneira antes dela cantar daquela forma. Ao final, uma saída de palco na mesma intensidade e compasso que a música transmite: o contraponto dos 200 Km/h com a inércia e vazio que a vida moderna pode proporcionar.
Voltando ao show… Foram selecionadas ótimas cantoras, com vozes marcantes e tecnicamente perfeitas para o especial da televisão, mas faltou Rita Lee. Pela sua história na música brasileira, penso que ela deixaria mais uma marca diferente da média que foi apresentado. Ao final vimos que num futuro DVD estarão outras cantoras para abrilhantar as músicas de Roberto Carlos.
Marília Pêra cantando 120… 150…
Ana Carolina cantando Força Estranha:
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A edição de número 62 do Festival de Cannes vai de 13 a 24 de maio de 2009. Saiu a lista dos filmes concorrentes aos principais prêmios. Esse ano tem filmes de ótimos diretores, tais como, Lars von Trier, Almodóvar, Ang Lee, Tarantino, Haneke…. bem, vamos lá que a lista é grande e promete:
Pedro ALMODÓVAR – LOS ABRAZOS ROTOS
Andrea ARNOLD – FISH TANK
Jacques AUDIARD – UN PROPHÈTE
Marco BELLOCCHIO – VINCERE
Jane CAMPION - BRIGHT STAR
Isabel COIXET – MAP OF THE SOUNDS OF TOKYO
Xavier GIANNOLI – A L’ORIGINE
Michael HANEKE – DAS WEISSE BAND (The White Ribbon)
Ang LEE – TAKING WOODSTOCK
Ken LOACH – LOOKING FOR ERIC
LOU Ye – CHUN FENG CHEN ZUI DE YE WAN (Spring Fever)
Brillante MENDOZA – KINATAY
Gaspar NOE – ENTER THE VOID
PARK Chan-Wook - BAK-JWI – (Thirst)
Alain RESNAIS – LES HERBES FOLLES (Wild grass)
Elia SULEIMAN – THE TIME THAT REMAINS
Quentin TARANTINO – INGLOURIOUS BASTERDS
Johnnie TO – VENGEANCE
TSAI Ming-liang – VISAGE (face)
Lars VON TRIER – ANTICHRIST
Só nos resta esperar para assitir bem depois a esses filmes.
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ASSISTE AO ENTERRO DE UM TRABALHADOR DE EITO E OUVE O QUE DIZEM DO MORTO OS AMIGOS QUE O LEVARAM AO CEMITÉRIO
Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a cota menor
que tiraste em vida.
é de bom tamanho,
nem largo nem fundo,
é a parte que te cabe
neste latifúndio.
Não é cova grande.
é cova medida,
é a terra que querias
ver dividida.
é uma cova grande
para teu pouco defunto,
mas estarás mais ancho
que estavas no mundo.
é uma cova grande
para teu defunto parco,
porém mais que no mundo
te sentirás largo.
é uma cova grande
para tua carne pouca,
mas a terra dada
não se abre a boca.
Viverás, e para sempre
na terra que aqui aforas:
e terás enfim tua roça.
Aí ficarás para sempre,
livre do sol e da chuva,
criando tuas saúvas.
Agora trabalharás
só para ti, não a meias,
como antes em terra alheia.
Trabalharás uma terra
da qual, além de senhor,
serás homem de eito e trator.
Trabalhando nessa terra,
tu sozinho tudo empreitas:
serás semente, adubo, colheita.
Trabalharás numa terra
que também te abriga e te veste:
embora com o brim do Nordeste.
Será de terra
tua derradeira camisa:
te veste, como nunca em vida.
Será de terra
e tua melhor camisa:
te veste e ninguém cobiça.
Terás de terra
completo agora o teu fato:
e pela primeira vez, sapato.
Como és homem,
a terra te dará chapéu:
fosses mulher, xale ou véu.
Tua roupa melhor
será de terra e não de fazenda:
não se rasga nem se remenda.
Tua roupa melhor
e te ficará bem cingida:
como roupa feita à medida.
Esse chão te é bem conhecido
(bebeu teu suor vendido).
Esse chão te é bem conhecido
(bebeu o moço antigo)
Esse chão te é bem conhecido
(bebeu tua força de marido).
Desse chão és bem conhecido
(através de parentes e amigos).
Desse chão és bem conhecido
(vive com tua mulher, teus filhos)
Desse chão és bem conhecido
(te espera de recém-nascido).
Não tens mais força contigo:
deixa-te semear ao comprido.
Já não levas semente viva:
teu corpo é a própria maniva.
Não levas rebolo de cana:
és o rebolo, e não de caiana.
Não levas semente na mão:
és agora o próprio grão.
Já não tens força na perna:
deixa-te semear na coveta.
Já não tens força na mão:
deixa-te semear no leirão.
Dentro da rede não vinha nada,
só tua espiga debulhada.
Dentro da rede vinha tudo,
só tua espiga no sabugo.
Dentro da rede coisa vasqueira,
só a maçaroca banguela.
Dentro da rede coisa pouca,
tua vida que deu sem soca.
Na mão direita um rosário,
milho negro e ressecado.
Na mão direita somente
o rosário, seca semente.
Na mão direita, de cinza,
o rosário, semente maninha,
Na mão direita o rosário,
semente inerte e sem salto.
Despido vieste no caixão,
despido também se enterra o grão.
De tanto te despiu a privação
que escapou de teu peito à viração.
Tanta coisa despiste em vida
que fugiu de teu peito a brisa.
E agora, se abre o chão e te abriga,
lençol que não tiveste em vida.
Se abre o chão e te fecha,
dando-te agora cama e coberta.
Se abre o chão e te envolve,
como mulher com que se dorme.
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Assistir a um filme que ganha o Oscar de melhor filme é sempre legal. Não que seja garantia de um grande filme, vide Titanic, Os Infiltrados, Chicago. Não são filmes ruins, mas estão longe de serem grandes filmes.
Quando fui ao cinema assistir a Quem Quer ser um Milionário? fui despretencioso, afinal de contas Danny Boyle faz um filme bom, dois ruins, acerta aqui, equivoca-se ali. Ainda bem que com esse filme ele acertou em cheio, bota em cheio nisso.
Primeiramente desconstróis aquela aura de que na Índia tudo é cores e alegria, onde as pessoas vivem meditando e adorando deuses. Pelo contrário, mostra a Índia mais ocidental, talvez a maior parte dela seja assim. Ao mostrar a sujeira de lá, foi além do Ganges, das roupas, dos rituais que, para nós, soam sujos e primitivos, mas que faz parte de uma cultura milenar.
A favela, o imenso abismo econômico, os que usam seres humanos como animais, a busca fácil pelo dinheiro, poder e prestígio, tudo isso passando longe de querer confundir-nos sobre as castas ainda existentes. Tudo se passa por pessoas iguais, em condições diferentes, mas que têm muito em comum: se arranjam como podem para se sustentarem.
Tudo isso é secundário no filme, é o pano de fundo para uma linda história de amor. Parece piegas, mas o filme está longe de ser e de usar clichês baratos de filmes comuns. Jamal é um rapaz que quer amar e ser amado. Para isso faz de tudo inclusive mostrar-se ao mundo como ignorante sortudo, mas que deseja mais que tudo, inclusive vinte milhões rúpias, o amor de Latika.
Não pensemos num romance a la Romeu e Julieta e suas variantes ao longo do tempo, mas de um amor que as dificuldades da vida moderna num país superpopuloso pode trazer.
O filme tenta mostra, de forma muito feliz e competente, que, mesmo em tempo de que o dinheiro e poder valem mais que qualquer coisa, o amor não é qualquer coisa, é tudo.
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Tirado do Terra Magazine
Claudio Leal
Atento observador das correntezas políticas, o senador Pedro Simon (PMDB-RS) critica a inversão dos trabalhos da Operação Satiagraha. “Quem está sem dormir de noite é o promotor, o procurador, o juiz… Os investigadores que estão sem sono”, ironiza.
Em entrevista a Terra Magazine, o peemedebista histórico afirma que o Brasil “ainda é o País da impunidade” e não se ouve mais falar em “nenhuma investigação” contra o banqueiro Daniel Dantas.
- O juiz que pediu duas vezes a preventiva do banqueiro já está respondendo a três processos. O promotor, a mesma coisa. E o Protógenes, a mesma coisa… – constata Simon.
Para o senador, a proposta do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, de criar corregedorias na Justiça para controlar externamente as ações da polícia, fere a Constituição. “Quem controla a polícia é a Procuradoria”.
Leia a entrevista:
Terra Magazine – Como o senhor analisa a proposta do presidente do STF, Gilmar Mendes, de criar corregedorias na Justiça para controlar a atividade policial?
Pedro Simon – Pra fazer isso, tem que mudar a Constituição. Porque, pela Constituição, quem controla a polícia é a Procuradoria. Os procuradores fazem esse controle. Pra fazer o que ele está propondo, tem que mexer na Constituição, mudar.
Isso é um avanço?
Não sei. Se ele quiser fazer isso, tem que mandar um texto pra ser discutido pelo Congresso. Que é difícil a Procuradoria controlar a Polícia, é difícil. Mas eu acho que com o Judiciário talvez fique mais difícil. Não é questão de colocar um e tirar outro. É mais complexo. De qualquer maneira, eu estranho ele pedir uma coisa que é da competência de outro. É da Procuradoria, está na Constituição.
Pode prejudicar investigações da Polícia Federal em casos como o do banqueiro Daniel Dantas?
Repare que, de certa forma, o que está acontecendo é que estão investigando os policiais que estão investigando. É o delegado, o promotor… O juiz que pediu duas vezes a preventiva do banqueiro já está respondendo a três processos. O promotor, a mesma coisa. E o Protógenes, a mesma coisa.
Como o senhor vê essa inversão?
Com toda sinceridade, claro que os abusos aconteceram e podem até ter acontecido. Tem que ver, tem que impedir. Ninguém é a favor de uma indiscriminalização, mexendo na vida de todo mundo. Mas que o Brasil é o país da impunidade, é. Acho que deve investigar. Vou além disso: acho que nós devíamos fazer aquilo que se chama terminar com a impunidade nesse País. E pra terminar com a impunidade, temos que começar com a classe dominante. Antigamente, se dizia que político não era punido porque tinha que passar pela Câmara dos Deputados ou pelo Senado. E eles nunca davam chance.
Eram julgados por seus pares.
Modéstia à parte, foi uma luta minha de 20 anos. Agora não tem mais isso. O Supremo pode processar o deputado. De qualquer maneira, os políticos não estão sendo condenados pela Justiça. Isso é que tem que acabar.
Daniel Dantas foi esquecido nesse processo?
Total. Parou. Quem está sem dormir de noite é o promotor, o procurador, o juiz… Os investigadores que estão sem sono. E o que é mais importante: a gente não ouve falar em mais nenhuma investigação. Pararam as investigações. Ninguém quer entrar nessa jogada.
Terra Magazine
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O ser humano valoriza mais a forma que o fundo. Geralmente damos mais ênfase àquilo que nos salta aos olhos, ouvidos e bocas que ao coração e a consciência. Neste período de fim de ano temos uma prova cabal da hipervalorização da forma: é o período de maior venda no comércio, dos inúmeros presentes de tão belas embalagens e tão pouco conteúdo que realmente chegue aos corações e mentes humanas.
Comemora-se o nascimento, a morte e o sofrimento daquele conclamado pela maioria das pessoas do ocidente como o maior de todos. Mas quando há comemorações para as virtudes e a mensagem reflexiva que ele trouxe? Nossos feriados são da forma e não do fundo. Apesar de ter um “ar” solidário de compaixão ao próximo são tão efêmeros quanto os presentes comprados. Qual é o feriado das bem-aventuranças? Que dia paramos para o “amai aos vossos inimigos”? Que dia comemoramos “fazei ao próximo aquilo que quereis para ti”? A resposta, infelizmente, é nenhum dia. Até porque esses dias não existem, ainda utópico seria pensá-los vivenciados nas relações humanas.
Quando o natal não somente simbolizar compra, nem nascimento de um homem, mas nascimento de idéias de amor, os presentes serão outros: gestos de afeto e de respeito pela dignidade humana. Quando a páscoa comemorar não a morte e a ressurreição, mas a virtude do bem querer a todos, deixaremos os chocolates em outros planos, para concentrarmos na humildade, não em lavar os pés alheios, mas de reconhecer no outro toda capacidade de amar, toda possibilidade de desenvolver e fazer parte também da construção de um mundo melhor.
Quando os “dias santos” chegarem, na realidade, serão todos os dias que veremos diminuir a violência, os dias que melhorarem a distribuição do bem-estar social e mais pessoas serão conscientes de seu papel no mundo. Devemos comemorar sempre o bem, as virtudes e todo aquele movimento feito por pessoas que querem um mundo melhor para todos. O natal, a páscoa, e os outros dias não são dias cristãos, deveriam ser dias de reflexão e ação no bem, dias de todos, sem rótulos, sem personificação, em coletividade, sem forma, com toda e qualquer intenção que construa o amor.
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Uma das melhores músicas dos Paralamas do Sucesso. Uma de minhas bandas preferidas. Em todo esse tempo, só perdi dois shows deles aqui na Paraíba. Sempre muito bom. E é para relembrar essa beleza de canção.
Baixar a música: aqui
Letra:
Eu hoje joguei tanta coisa fora
Eu vi o meu passado passar por mim
Cartas e fotografias gente que foi embora.
A casa fica bem melhor assim
O céu de ícaro tem mais poesia que o de galileu
E lendo teus bilhetes, eu penso no que fiz
Querendo ver o mais distante e sem saber voar
Desprezando as asas que você me deu
Tendo a lua aquela gravidade aonde o homem flutua
Merecia a visita não de militares,
Mas de bailarinos
E de você e eu.
Eu hoje joguei tanta coisa fora
E lendo teus bilhetes, eu penso no que fiz
Cartas e fotografias gente que foi embora.
A casa fica bem melhor assim
Tendo a lua aquela gravidade aonde o homem flutua
Merecia a visita não de militares,
Mas de bailarinos
E de você e eu.
Tendo a lua aquela gravidade aonde o homem flutua
Merecia a visita não de militares,
Mas de bailarinos
E de você e eu.
Vídeo:
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Está no portal UOL: A Catedral Metropolitana de Ribeirão Preto vai aceitar o pagamento do dízimo com cartão de crédito Visa e Mastercard.
Já estou imaginando a propaganda da Mastercard:
- Assitir a um culto: custa …
- Ir a um encontro com Cristo: custa ….
- Pagar seu dízimo com Mastercard: não tem preço.
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As eleições estão chegando ao fim, pelo menos em minha cidade, ao que tudo indica, haverá apenas um turno. O saldo é mais que negativo. Não que não queira ou queira o atual prefeito novamente no poder, mas as campanhas forma de nível ínfimo. Ouvir propostas consistentes, e sinceridade nas palavras é mais raro que encontrar um doador de medula óssea.
O que mais se vê é: vamos investir em educação e saúde, em moradia e emprego, em turismo e renda, blá, blá, blá… nenhum mostrou como fará isso ou aquilo, mas farão, será? O mais horripilante é ouvir e sentir a mudança na tonalidade das vozes, onde normalmente fala sempre de forma mais enérgica, agora é uma mansuetude que me dá inveja, até para falar mal do outro, fala como se a Madre Tereza de Calcutá estivesse reivindicando melhorias, deixando para que um locutor de seu programa fizesse os ataques mais ferozes. Outros mostrando-se mais humano e solidário, enquanto outro mais arrogante, e ainda tem aqueles que estão no início do século XX, fazendo discursos da causa disso ou daquilo, tanto blá, blá, que já não agüentamos mais.
Políticos que sempre pautam suas ações com mais seriedade e planejamento, se submetem a baixarias em épocas de eleição. Um dos momentos mais importantes para a nossa sociedade se transforma em momentos ridículos, esdrúxulos, onde uns querem manter essa baixaria para poder fazer com que a população não dê valor à política, enquanto outros querem mais não conseguem elevar o nível e, mesmo querendo mais participação popular, caem na mesmice.
O programa televisivo dos candidatos a vereador parece mais um programa humorístico, com nomes pitorescos, promessas milagrosas, caras e bocas sérias e muita repetição. Provavelmente muitos candidatos não sabem a filosofia de seu partido, ou melhor, não se interessam pela filosofia do partido, mas em ganhar votos para esse ou aquele candidato a prefeito ou a um deputado, governador ou senador que prometeu um cargo caso consiga algumas centenas de votos para eles.
É o mercado do voto, que não somente se estabelece na compra direta, mas nas concessões de cargos públicos pelos votos conseguidos. Alguns dizem que isso normal e deve ser assim, senão não haveria trabalho de base. Mas isso traz uma perpetuação da letargia pública que estamos. Vamos votar e cobrar, mas que acabe logo com a propaganda eleitoral. Não agüento mais!
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Fé e ambição andam juntas.
Ontem tive que tirar um atraso cinematográfico. Devido a diversos fatores, ainda não tinha assistido ao filme Sangue Negro de Paul Thomas Anderson, um dos melhores diretores da atualidade. Gostei e muito de seus três filmes anteriores, Boogie Nights, Magnólia e Embriagado de Amor. A expectativa para esse filme era grande, principalmente depois de tantas respostas positivas por parte da crítica especializada. Eis que uma ansiedade traz sentimentos diversos quando realizamos o que nos deixava ansioso.
O filme conta a história de Daniel Plainview, um mineiro/geólogo que busca a todo instante, independentemente de quem esteja ao lado, a frente, atrás, o seu maior artigo de fé: ficar rico o petróleo. No meio de seu caminho, entre outros está um pastor evangélico que tem sua maior ambição: ser reconhecido como um grande homem de fé.
Apesar de ser um pouco lenta, a narrativa, vemos um diretor primoroso, que não precisa provar mais nada, ainda mais quando conta no elenco Daniel Day-Lewis, no papel principal e praticamente leva sozinho o filme, numa parceria ente diretor-ator que poucos filmes fizeram tão bem e que valem todos os prêmios que ganharam. Os outros são coadjuvantes não somente no filme mas na ambição do personagem, que parece não transmitir nenhum ressentimento ou qualquer tipo de conflito entre o que faz e o que sente, como se sempre houvesse um propósito para seus atos. Ao mesmo tempo, mas em menor volume e vigor, o pastor, vivido por Paul Dano, tem seus objetivos claros, os quais se cruzam com esse homem com pouco coração e completamente desprovido de compaixão. Mas quando se espera compaixão e amor por parte desse “homem de Deus”, a semelhança com Daniel Plainview é evidente.
Fanatismo e fé se misturam em objetivos diferentes mas que têm encontros comuns em seus caminhos e esses caminhos são magistralmente transpostos à tela em cenas hora poéticas, hora longas demais, mas que sem dúvida alguma, deixa o filme muito belo, apesar de uma história não tão bela.
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O RETIRANTE CHEGA À ZONA DA MATA, QUE O FAZ PENSAR, OUTRA VEZ, EM INTERROMPER A VIAGEM
Bem me diziam que a terra
se faz mais branda e macia
quando mais do litoral
a viagem se aproxima.
Agora afinal cheguei
nesta terra que diziam.
Como ela é uma terra doce
para os pés e para a vista.
Os rios que correm aqui
têm água vitalícia.
Cacimbas por todo lado
cavando o chão, água mina.
Vejo agora que é verdade
o que pensei ser mentira
Quem sabe se nesta terra
não plantarei minha sina?
Não tenho medo de terra
(cavei pedra toda a vida),
e para quem lutou a braço
contra a piçarra da Caatinga
será fácil amansar
esta aqui, tão feminina.
Mas não avisto ninguém,
só folhas de cana fina
somente ali à distância
aquele bueiro de usina
somente naquela várzea
um bangüê velho em ruína.
Por onde andará a gente
que tantas canas cultiva?
Feriando: que nesta terra
tão fácil, tão doce e rica,
não é preciso trabalhar
todas as horas do dia,
os dias todos do mês,
os meses todos da vida.
Decerto a gente daqui
jamais envelhece aos trinta
nem sabe da morte em vida,
vida em morte, severina
e aquele cemitério ali,
branco de verde colina,
decerto pouco funciona
e poucas covas aninha.
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Ensaio sobre a cegueira é uma obra visceral. No pior sentido da palavra. Enquanto todos pregamos uma espiritualidade do ser, Saramago traz-nos uma reflexão sobre nossa conduta ética perante o outro. O maior código ético da sociedade são nossos olhos. Sem eles não há ética (a que conhecemos), norma (a que conhecemos); sem eles, teremos que aprender o que achávamos que já tínhamos aprendido. Certo crítico disse uma vez que o filme Clube da Luta era um soco no estômago, Ensaio Sobre a Cegueira é um soco na alma, e mais, acerta em cheio. Os conflitos existenciais parecem não existir nesse mundo, porém aquela que é a única a enxergar, transborda em conflitos nunca antes emergidos, que agora afloram a cada compasso cardíaco. Um livro imperdível. Através de seu estilo primoroso de contar e fazer-nos interpretar sua história, Saramago é ao mesmo tempo poético e bruto; brando e feroz; cativante e destruidor, mas deixa um saldo positivo, numa perspectiva que, apesar de tudo, ainda há uma chance, mesmo na condição que se encontra. Mas estou falando do livro, e o filme?
Tentar expressar pela tela do cinema tudo o que o livro traz é uma tarefa ingrata, até porque, dificilmente, ou dependendo do ângulo, não vemos essas nuances através das lentes do diretor. Penso que deveríamos ver filmes baseados em livros, como se fosse uma outra proposta, para não cairmos no de sempre, compará-los. Não dá. O que as letras esclarecem, as lentes escondem; o que as lentes expressam, as letras ocultam. Enfim, são formas artísticas distintas que, ás vezes, querem contar a mesma história.
Mas o filme tem uma direção primorosa, atores que não somente ficaram cegos, porém (in)vestiram-se em um caminho difícil, personagens não atraentes, sem heróis, sem glamour, contudo vigorosos suficiente para deixar-nos vidrados no filme e pensarmos que se isso realmente acontecer é que será o tão mítico e fantasioso apocalipse: humanos destruindo uns aos outros (em certo sentido isso já ocorre).
Vale a reflexão do quanto às normas sociais não deixam que sejamos realmente francos (como numa cena de preconceito racial evidente), que mais que a polícia ou o judiciário, os olhos alheios são as maiores invasoras de privacidade, pois não nos deixam ser quem somos. Será que somos como retratados no filme?
Penso que a pior situação não é ser cego onde todos são cegos, é enxergar nesse mundo. Não porque será a serviçal de todos, mas porque será a única testemunha ocular daquilo que está escondido de todos. Imagine uma avalanche no Himalaia, só que não é neve que cai, é a mazela humana, lhe soterrando e levando sua alma na torrente das ilusões que vivemos com os olhos que vêem (ou não), e isto é, talvez, uma das maiores formas de sofrimento humano já transportado ao cinema.
É um filme difícil para alguns, mas essencial para refletirmos o que somos e nas condições em que vivemos e que podemos viver. Corra para a livraria e para o cinema, são imperdíveis.
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